Você já percebeu que algumas crianças parecem ter muito mais dificuldade do que outras para lidar com a frustração, a raiva ou o medo? Essa dificuldade tem nome: desregulação emocional na infância. E um novo estudo publicado no Journal of Affective Disorders revelou algo que todo pai, mãe e educador precisa saber: crianças que apresentam desregulação emocional na infância — especialmente aos 7 anos de idade — têm significativamente mais chances de desenvolver ansiedade e depressão ao longo da adolescência.
A descoberta é importante porque oferece uma janela de oportunidade. Se a desregulação emocional na infância pode ser identificada precocemente, ela também pode ser trabalhada antes que se transforme em sofrimento psicológico duradouro. Neste artigo, você vai entender o que é esse fenômeno, o que a pesquisa descobriu, quais são os sinais de alerta e o que famílias e profissionais podem fazer a respeito.
O Que é Desregulação Emocional na Infância
A desregulação emocional na infância ocorre quando a criança apresenta dificuldade persistente em controlar e responder às suas próprias emoções de maneira adequada ao contexto. Isso pode se manifestar como:
- Explosões frequentes de raiva desproporcional ao estímulo
- Choro intenso e prolongado sem motivo aparente
- Comportamento impulsivo sem considerar consequências
- Sensação de esmagamento diante de situações cotidianas
- Dificuldade em se acalmar após situações estressantes
É fundamental diferenciar a desregulação emocional dos comportamentos típicos do desenvolvimento. Toda criança tem crises — o problema está na intensidade, na frequência e na persistência desse padrão ao longo do tempo.
A regulação emocional é uma habilidade que se desenvolve gradualmente na infância, com pico de desenvolvimento entre os 3 e os 10 anos. Crianças que não conseguem desenvolver essa habilidade dentro de uma faixa adequada ficam vulneráveis a uma série de dificuldades psicológicas futuras.
O Estudo: O Que a Pesquisa Descobriu Sobre Desregulação Emocional na Infância
A investigação foi conduzida por Aja Murray e equipe, do Departamento de Psicologia da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido. Os pesquisadores utilizaram dados do UK Millennium Cohort Study, um estudo de larga escala e representatividade nacional que acompanhou milhares de crianças nascidas no início deste século.
A amostra incluiu entre 6.394 e 11.178 crianças, dependendo da faixa etária analisada. A desregulação emocional na infância foi avaliada pelos pais quando as crianças tinham 7 anos. Em seguida, os sintomas de saúde mental foram medidos aos 11, 14 e 17 anos, por meio de questionários validados que capturam indicadores como:
- Preocupação excessiva e frequente
- Tristeza e infelicidade persistentes
- Nervosismo em situações novas
- Queixas físicas sem causa aparente (dores de cabeça, dores de barriga)
As avaliações foram feitas por pais, professores e pelos próprios adolescentes em diferentes momentos.
Metodologia Robusta: Simulando um Experimento Controlado
O diferencial deste estudo está na metodologia. Em vez de usar técnicas estatísticas convencionais — que são vulneráveis a fatores de confusão, como pobreza ou ambiente familiar difícil — os pesquisadores empregaram uma análise contrafactual, método sofisticado que simula as condições de um ensaio clínico randomizado.
O algoritmo agrupou crianças com históricos de vida semelhantes (mesma renda familiar, estilo parental, capacidade cognitiva, qualidade do sono, saúde mental prévia), mas que diferiam na capacidade de regular emoções aos 7 anos. Isso permite isolar o efeito da desregulação emocional na infância com muito mais precisão do que estudos anteriores.
Os Resultados
Os resultados foram consistentes e estatisticamente significativos: crianças com maior desregulação emocional na infância aos 7 anos apresentaram níveis mais elevados de ansiedade e depressão:
- Aos 11 anos — nas avaliações feitas pelos pais
- Aos 14 anos — nas avaliações feitas pelos pais
- Aos 17 anos — tanto nas avaliações dos pais quanto nas autoavaliações dos próprios adolescentes
Os relatos de professores aos 11 anos não atingiram significância estatística — o que os pesquisadores atribuíram principalmente ao tamanho reduzido da amostra nesse grupo, e não a uma ausência real do efeito.
Por Que a Desregulação Emocional na Infância Afeta a Saúde Mental na Adolescência?
Existem pelo menos três mecanismos pelos quais a desregulação emocional na infância pode contribuir para o desenvolvimento de ansiedade e depressão na adolescência:
1. Ciclos de evitação Crianças que não sabem regular suas emoções tendem a evitar situações que provocam desconforto. Com o tempo, essa evitação se generaliza e alimenta a ansiedade.
2. Dificuldades nas relações sociais A incapacidade de regular emoções prejudica as amizades e interações sociais. O isolamento resultante é um fator de risco bem estabelecido para a depressão na adolescência.
3. Vulnerabilidade ao estresse A adolescência é um período de alta pressão social e acadêmica. Jovens que não desenvolveram habilidades de regulação emocional na infância chegam a esse período menos equipados para lidar com os desafios.
Sinais de Alerta: Como Identificar a Desregulação Emocional na Infância
Reconhecer a desregulação emocional na infância é o primeiro passo para buscar ajuda. Os principais sinais incluem:
Em crianças de 4 a 7 anos:
- Birras frequentes e intensas para a faixa etária
- Incapacidade de se acalmar sem auxílio externo por períodos prolongados
- Agressividade física (morder, bater, chutar) recorrente
- Hipersensibilidade a pequenas mudanças de rotina
Em crianças de 7 a 12 anos:
- Explosões de raiva desproporcionais
- Dificuldade em retomar atividades após contratempos
- Ansiedade intensa diante de situações novas
- Autoestima fortemente afetada por críticas ou erros
Se você identifica esses comportamentos de forma persistente no seu filho, a avaliação com um psicólogo ou psiquiatra infantil é indicada.
O Que Fazer: Intervenções para a Desregulação Emocional na Infância
A boa notícia é que a desregulação emocional na infância é tratável — e quanto antes, melhor. As abordagens com maior evidência científica incluem:
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) para Crianças
A TCC adaptada para crianças ensina habilidades práticas de reconhecimento e manejo das emoções. É considerada a primeira linha de tratamento pela maioria das diretrizes internacionais.
Treinamento de Pais
Pais que aprendem a responder de forma consistente e afetuosa às emoções dos filhos — sem minimizar nem amplificar — ajudam a criar o ambiente ideal para o desenvolvimento da regulação emocional.
Mindfulness Infantil
Práticas de atenção plena adaptadas para crianças ajudam a desenvolver a capacidade de observar as próprias emoções sem ser dominado por elas.
Intervenções Escolares
Programas de aprendizagem socioemocional (SEL — Social-Emotional Learning) aplicados em escolas mostraram resultados positivos na redução da desregulação emocional em crianças.
Limitações do Estudo
Os próprios autores destacam algumas limitações importantes:
- Não é possível descartar completamente fatores de confusão não medidos, algo inerente a toda pesquisa observacional
- O estudo utilizou medidas amplas que não distinguem ansiedade de depressão separadamente
- A dependência de relatos parentais tanto para a avaliação da desregulação emocional na infância quanto para os desfechos de saúde mental pode inflar artificialmente a magnitude da relação encontrada (viés de rater comum)
Apesar dessas limitações, a robustez metodológica do estudo — especialmente o uso da análise contrafactual — representa um avanço significativo em relação a pesquisas anteriores.
Conclusão dos Pesquisadores
“A regulação (dys-)emocional na infância pode ser um fator causal nos problemas internalizantes na adolescência e, portanto, um promissor alvo de intervenção”, concluíram os autores. “Os efeitos persistiram até os 17 anos, sugerindo um benefício sustentado da melhor regulação emocional na infância; no entanto, foram modestos em magnitude, destacando que abordar a desregulação emocional isoladamente provavelmente não será suficiente para proteger os jovens contra o início ou a escalada de problemas internalizantes na adolescência.”
Em linguagem simples: trabalhar a desregulação emocional na infância é importante e faz diferença — mas ela é uma peça do quebra-cabeça, não a solução completa.
FAQ
O que é desregulação emocional na infância? Desregulação emocional na infância é a dificuldade persistente que uma criança tem em controlar, expressar e responder às suas emoções de forma adequada ao contexto. Manifesta-se como explosões de raiva frequentes, choro excessivo, impulsividade e incapacidade de se acalmar sem auxílio externo.
A desregulação emocional na infância causa ansiedade e depressão? Sim. Um estudo publicado no Journal of Affective Disorders (2025), com mais de 11.000 crianças do UK Millennium Cohort Study, demonstrou que crianças com desregulação emocional aos 7 anos apresentam níveis significativamente mais altos de ansiedade e depressão aos 11, 14 e 17 anos.
Qual a idade mais crítica para a desregulação emocional na infância? Pesquisas indicam que o período entre os 6 e os 8 anos é especialmente relevante. O estudo de Murray et al. utilizou a avaliação aos 7 anos como marcador preditivo para problemas de saúde mental ao longo de toda a adolescência.
Como tratar a desregulação emocional na infância? As abordagens com maior evidência incluem: Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) adaptada para crianças, treinamento de habilidades parentais, práticas de mindfulness infantil e programas de aprendizagem socioemocional (SEL) nas escolas.
Qual a diferença entre birra normal e desregulação emocional na infância? Birras são esperadas no desenvolvimento. A desregulação emocional na infância se distingue pela frequência, intensidade, duração e pela incapacidade da criança de se autorregular mesmo com apoio. Quando o padrão é persistente e impacta o funcionamento social e escolar, a avaliação profissional é recomendada.
Quem realizou o estudo sobre desregulação emocional na infância e adolescência? O estudo foi conduzido por Aja Murray e equipe do Departamento de Psicologia da Universidade de Edimburgo, Reino Unido, e publicado no Journal of Affective Disorders em 2025. DOI: 10.1016/j.jad.2025.119433
Murray, A., Wright, H., Casey, H., King, J., Zhu, X., Yang, Y., Xiao, Z., & Li, X. (2025). Is emotion dysregulation in childhood a precursor to internalising problems in adolescence? Journal of Affective Disorders. https://doi.org/10.1016/j.jad.2025.119433
Conteúdo produzido com base em pesquisa científica publicada. Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de profissionais de saúde mental.









